quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Milagres contra o Evangelho

Uma das principais indicações do paulinismo de que o arrebatamento seguido do surgimento do iníquo é iminente é a apostasia em escala mundial (2 Ts 2.1-12; vide também 1 Tm 4.1,2). A apostasia espiritual é marcada pela incredulidade entre alguns "ex-crentes" professos que abandonaram a verdade das Escrituras para repudiar o genuíno Evangelho. Um grande exemplo disso são os teólogos liberais que não crêem na inerrância das Escrituras, são relativistas, universalistas, ecumênicos, não acreditam na existência do inferno... No cenário religioso nacional observamos alguns elementos apóstatas. Chama a atenção, a profusão de ensinos e práticas heterodoxas que tornam um desafio discernir a verdade do erro, uma vez que ambos se confundem numa simbiose perversa.

Num emaranhado de modismos teológicos e monstruosidades adicionais, pouca atenção tem sido dispensada às advertências das profecias bíblicas, com exceção para alguns poucos ministérios escatológicos. Apostasia tem mais relação com aquilo que tem a aparência da verdade, cheiro e cores da verdade, atraência da verdade, do que com a essência que, se precisamente tocada, revela uma verdade apenas parcial: é o subterfúgio usado para camuflar a mentira. Os profetas da apostasia, mesmo em alguns casos não sendo conscientes de sua condição, gostam de imitar a verdade, contudo jamais denunciam aquilo que é totalmente mal. Nunca me esqueci das palavras do apologista Hal Lindsey de que o Diabo, para enganar, precisa apenas de um litro de veneno para contaminar um lago. O problema na esfera do evangelicalismo brasileiro reside menos naquilo que é dito e falado e mais naquilo que precisa ser externado e não é; se Jesus Cristo e os apóstolos não faziam concessões e não relativizavam o evangelho para que este caísse bem no gosto do público, hoje o “evangelho" com freqüência é adocicado e psicologizado para não machucar os egos. O objetivo, ao contrário, é massageá-los. O pecado praticamente já não é confrontado para não espantar as “ovelhas”, ou melhor, a clientela. Adiciona-se a isso a disseminação das meias verdades, dos milagres que não são milagres, das “curas” não verificáveis (ao contrário dos tempos de Jesus), de evangelhos sem cruz, explosões de curas e maravilhas sem evangelho. Exercitar o discernimento bereano nos dias atuais é o desafio maior daqueles que realmente crêem em Cristo e em Sua palavra. A apostasia é uma advertência bíblica, tem várias faces, mas quero refletir apenas acerca do que creio possa ser uma delas.

Tenho sido freqüentemente questionado a respeito do que pensar de “apóstolos” e programas que mostram testemunhos de pessoas supostamente curadas em templos cuja maior virtude exaltada é “aqui o poder de Deus opera”. É inegável que tais “apóstolos” tornaram-se uma curiosidade nacional, um achado para muitos, motivo de preocupação para a “concorrência”, para igrejas que levam na sigla expressões como “Reino de Deus (?)”, afinal, não se pode perder fatias do mercado. Seguem-se a isso acusações de curandeirismo e charlatanismo, afirmações de que tais apóstolos, em lugar de serem obreiros fraudulentos, são servos do altíssimo, ou que pagam para que certos “Malas” falem bem deles, etc. Questões suficientes para mostrar que esses “apóstolos” são fenômenos de audiência, de polêmica, estão no centro das atenções em guetos religiosos e em vários outros setores sociais e, por essas razões, merecem ser analisados à luz das Escrituras.

Caio Fábio disse:

“O que diferencia as coisas de Deus das coisas dos deuses entre os homens, não são milagres, nem poderes, nem demonstrações, nem sinais, nem prodígios, nem coisas extraordinárias, posto que todas essas coisas sempre tenham se manifestado entre todos os povos da terra. Línguas estranhas, profecias, sonhos e visões, curas, sinais prodigiosos, etc... — estão presentes em todos os registros de quase todos os povos primitivos.
Portanto, o que diferencia as coisas de Deus das coisas dos deuses não são fenômenos, mas um único fenômeno: o amor...”.

Correto! E as curas, por exemplo, acontecem até mesmo dentro das religiões e seitas pagãs. O Diabo, para enganar, também cura. Nem toda manifestação sobrenatural envolvendo milagres, curas e maravilhas, provém de Deus. A Bíblia dá contundentes provas de que Satanás é especialista em contrafações dos milagres divinos. Depois que Moisés e Arão jogaram a vara no chão e esta transformou-se em serpente diante do faraó, os magos e feiticeiros do Egito usaram o ocultismo para fazer o mesmo. No livro de Apocalipse (cap. 13) o Falso profeta fará grandes sinais diante da besta (Anti-Cristo). Em 2 Tessalonicenses (cap. 2) a manifestação do homem do pecado, o filho da perdição (Anti-Cristo) será conforme a eficácia de Satanás, com todo o poder, sinais e prodígios da mentira. Falando acerca do fim dos tempos Jesus disse: “Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão sinais e maravilhas para, se possível, enganar os eleitos” (Mc 13.22).

E se os milagres forem feitos em nome de Jesus? É Claro, os verdadeiros pastores e profetas fazem assim. O problema é que os falsos profetas também podem fazer o mesmo.

Disse Jesus: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus... Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres? Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal!” (Mt 7.21-23)

Milagres e curas provenientes de Deus existem. Conheci alguns casos distantes dos holofotes e câmeras, cujos testemunhos levaram várias pessoas à conversão. Mas é estranho como muitos milagres e curas atuais não seguem os padrões bíblicos. Em programas de televisão onde a ênfase está na cura, costumeiramente o evangelho não é pregado. São intermináveis testemunhos com exposição de exames médicos supostamente realizados antes e depois da cura. Só que não há nenhuma imagem do momento em que o “ministro” determinou publicamente a cura, seguindo o padrão de Jesus e dos apóstolos. Nunca vimos curas verificáveis de pessoas que passaram a andar depois de estarem numa cadeira de rodas. Não se percebe qualquer deformidade nas pernas, ou pessoas aleijadas tornadas eretas. Apenas caroços que desaparecem, dizem. E ao contrário de tais igrejas, a ênfase de Jesus não estava na cura física e sim na cura do pecado. Além disso, Jesus operava milagres como expressão do amor de Deus pela impotência e sofrimento humanos, nunca para fazer estardalhaço ou estratégia de marketing. Tanto que muitas vezes Jesus não assumia os “direitos autorais” pelo milagre. Um dos galardoados não sabia, por exemplo, quem o havia curado quando questionado sobre isso. Às vezes Jesus, após curar, dizia: não diga isto a ninguém.

Não me esqueço também de um documentário do FBI, nos EUA, que decidiu fazer os exames médicos de pessoas que teriam sido curadas numa grande cruzada de curas e maravilhas. Os exames revelaram que nenhuma das cerca de 20 pessoas examinadas tinham sido de fato curadas. As doenças permaneciam. O profeta da cura, ao ser questionado do por que das curas não terem de fato acontecido, desconcertado, respondeu que foi por falta de fé das pessoas envolvidas. Muito conveniente. O ministro das “curas” em questão era Benny Hinn.

Milagres sem Deus, milagres de Deus no anonimato, milagres que não curam o corpo, adoecem a alma e matam o espírito, milagres sem amor, milagres que alimentam a fé no milagre e não em Deus, e viciam, causam uma síndrome judaica, daquela em que os Judeus pediam sinais. A despeito da profusão de sinais nos tempos antigos, os judeus eram peritos em incredulidade e adultério espiritual. Com esta realidade de tantas estranhezas, não me surpreende o conteúdo da última referência bíblica supramencionada (Mt 7.21-23).

E quanto mais as multidões ansiavam por milagres, menos Jesus as satisfazia. Os milagres atraíam as maiores multidões, já o evangelho genuíno... O cenário não mudou de lá pra cá. Os ambientes dos “milagres sem evangelho” são cheios de pessoas, e, talvez, os mais vazios de Deus.

Por todas essas razões os milagres que devem ser buscados são o milagre do amor de Deus, do arrependimento dos pecados, do novo nascimento em Cristo, de ser nova criatura, de andar em novidade de vida, milagre do perdão, da santificação e da vida eterna.

Não busque os sinais e sim a palavra de Deus, e a comunhão com Ele em pessoa. Que o Senhor nos conceda entendimento e nos livre de todo engano!

Por Sandro Moraes







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