quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A oração não respondida de Jesus no Getsêmani

Por Sandro Moraes

"Ó meu Pai, se possível for, passa de mim este cálice! Contudo, não seja como Eu desejo, mas sim como Tu queres" (Mt 26.39 – NT King James).

Um dos grandes mistérios e desafios para o homem é compreender o que parece ser um dos exemplos clássicos de oração não respondida, e feita logo por Jesus Cristo, no Jardim do Getsêmani, antes do seu caminho para a cruz. O silêncio aparente de Deus e o “não” como resposta são capazes de intrigar a mente humana mais perspicaz porque se dirigiram ao Deus que se fez carne para conviver conosco e que viveu uma vida inteira de obediência ao Pai Celeste.

Vários esforços foram empreendidos no perpassar dos séculos na tentativa de clarificar a razão de Jesus aparentemente ter pedido para Deus o livrar da cruz, já que Ele sabia qual era a sua missão, como provam as profecias, em que era necessário que o filho do homem morresse e ressuscitasse como Ele mesmo havia dito.

Afinal, o que aconteceu? Jesus temeu ir para a cruz? “Se teve, foi um covarde, pois milhares de pessoas foram crucificadas pelos romanos e encararam a morte de frente e de modo até desafiador!”, diria um cético, para quem Jesus foi no máximo um homem brilhante.

Teve medo da tortura anterior à cruz? “Ao longo da história muitas pessoas enfrentaram torturas mais bravamente!”, talvez assim bradasse um zombador ou mesmo alguém sincero.

Cito as explicações de alguns teólogos para o dilema:

Diretor da Obra Missionária Chamada da Meia-Noite nos EUA, Arno Froese entende que o cálice não era uma referência a cruz. O que Jesus pediu foi que o Pai não permitisse que o messias fosse morto ali mesmo no Jardim. Froese usa o texto de Hebreus 5.7 para fundamentar seu entendimento:

“Durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em clamor e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, havendo sido ouvido por causa de sua reverente submissão”.

Observe que o versículo diz que Jesus foi ouvido em seu pedido.

Arno Froese prossegue: “O Getsêmani foi o único local onde Jesus pediu que a sua vida fosse poupada; Jesus não morreu no Jardim do Getsêmani. O silêncio aparente de Deus à oração de Jesus no Jardim foi, como vimos, uma clara resposta a esta oração. Deste ponto de vista, entendemos que a oração de Jesus não foi para que sua vida fosse poupada na cruz do Calvário. A oração de Jesus foi para que tivesse Sua vida poupada, para que não morresse ali no Jardim Getsêmani. Ele estava destinado a morrer na cruz do Calvário para tirar os pecados do mundo”. [1].

Arno conclui que os poderes das trevas e mesmo a morte estavam prontos a tirar a vida de Jesus ali mesmo naquela hora no Jardim.

Não posso deixar de reconhecer que há uma fundamentação interessante para um argumento inovador aqui.

Há, porém, um outro ponto de vista mais clássico. Em resposta à afirmação de que o medo de Jesus adicionado a sua oração não respondida invalidaria a afirmação de que Ele era Deus encarnado, o apologista Dave Hunt declara que Jesus não temia a cruz.

“Não foi o pensamento do intenso sofrimento físico que fez que seu suor caísse como gotas de sangue. Em vez disso, sua santa alma encolheu-se com a chegada daquilo que Ele mais abominava: o pecado. Como Paulo explicou: “Aquele [Cristo] que não conheceu pecado, o fez [Deus] pecado [Ele] por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5.21)”. [2]


Entre os dois posicionamentos, faz mais sentido, na minha ótica, a abordagem de Dave Hunt, pois o versículo de Hebreus utilizado por Arno Froese, em seu contexto, não se refere a uma única oração feita por Jesus. O texto diz que durante seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas. Infere-se daí que Jesus sempre teve suas orações respondidas por causa da sua obediência*.

O que era o cálice então?

Era todo o sofrimento resultante do fato do perfeito filho de Deus assumir sobre si a punição pelos pecados da humanidade, algo que lhe era repugnante, embora tenha aceitado a missão submissa e voluntariamente. O pensamento de suportar a ira santa de Deus Pai lhe causava Horror. “Jesus tinha de enfrentar a morte sabendo que seu pai não estaria com ele, mas contra ele, em ira e juízo”. [3]

“A ira de Deus foi desencadeada contra ele (Jesus). Somente isso pode explicar satisfatoriamente o que aconteceu no Getsêmani”. [4]

O cumprimento da exigência de Deus para satisfação de Sua justiça ocasionou uma temporária, porém necessária separação de Jesus em relação a Deus, levando o seu lado humano a questionar porque foi abandonado. “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste? (Mt 27.46). O grito desolado (em cumprimento ao Sl 22.1) mostrava Jesus suportando o horror do juízo divino sobre o pecado que causava um agonizante sofrimento naquele que desfrutou de um perfeito relacionamento de amor com o Pai. Deus virou o rosto. Jesus estava separado tomando sobre si o nosso pecado e sofrendo a punição que nós merecíamos, para nos reconciliar com Deus.


Não creio que possamos entender totalmente a realidade da cruz, todavia a resposta silenciosa de Deus, insistindo no caminho da cruz, mostra que não havia outro modo pelo qual nossa salvação pudesse ser alcançada. A cruz é uma gritante declaração do amor de Deus por nós. Nem mesmo o infinito amor do Pai pelo Filho Unigênito foi suficiente para fazer Deus voltar atrás retirando o cálice.

Pela fé em Cristo temos a vida eterna. Nunca mais estaremos perdidos. Fomos achados. Pela fé no sacrifício de Cristo, jamais estaremos eternamente separados de Deus, embora mereçamos isto. A cruz nos deu a garantia de que nada nos separará do Seu amor.

Reflita acerca disso!

Fevereiro de 2010. São Luís-MA/Brasil

*A Bíblia de Estudo Vida faz o seguinte comentário sobre Hb 5.7: Como Deus atendeu às súplicas de Cristo para que fosse liberto da morte?
Resposta: Jesus agonizou no jardim do Getsêmani, e Deus o libertou do poder da morte por meio da ressurreição. Alguns acreditam que de fato estivesse agonizando por causa da morte espiritual - i.e., por ficar separado do Pai ao levar sobre si o pecado do mundo. No entanto, Deus concedeu paz a Jesus, até mesmo enviando um anjo para confortá-lo (Lc 22.43).



Notas:

1. FROESE, Arno & STEIGER, Dieter. Meu Deus, Obrigado por Não Responderes às Minhas Orações. Actual Edições: Porto Alegre-RS, 2000, pg 29.

2. HUNT, Dave. Em Defesa da Fé Cristã. CPAD: Rio de Janeiro,RJ, 2006, pg 194.

3. Bíblia de Estudo de Genebra. Cultura Cristã e SBB: São Paulo, 1999, pg 1139.

4. Bíblia de Estudo NVI. Editora Vida: São Paulo, 2003, pg 1665.







5 comentários:

Pastoragente disse...

Graça e paz!
Vim conhecer seu Blog e quero te parabenizar pela bênção que pude ver aqui.
Já estou seguindo.
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Fique na paz e um 2010 abençoado para você e toda sua família.
Abração!!!

Doutrina Cristã disse...

Grande mensagem. Aleluia.
A luta demoníaca que nos aflige atualmente, é a da tentação de não crermos em Jesus, em oração; de relutar ao comando de Jesus, quando somos batizados; e, de não termos a humildade de obedecer a sua igreja, no sentido missionário

Obrigado Sandro por seguir nosso blog.
Estou seguindo seu.
Temos também uma Rede Social Cristã, onde você poderá ter a sua página para divulgar o lindo trabalho do seu blog. Entre em http://doutrinacrista.ning.com/ e seja membro. Te vejo lá?

Fique na paz de Cristo.
A ideologia não se mantém pelo que você domina, mas com o que você pensa e idealiza (LC).
Grande abraço

luiz cledio

Elias Jr. disse...

Grande Sandro, parceiro de debates. Tenho sentido saudades dos momentos que passamos juntos, contribuindo com os debates na rádio. Espero te encontrar em breve na 92. Parabéns pelo seu blog, pela inspiração em escrever e pelas colocações sempre poderadas e coerentes. É um prazer ler as coisas que vc escreve. Eu tb me lancei ao desafio de ser um blogueiro, passa lá no www.prjrelias.blogspot.com. Eu já sou um seguidor seu. Querendo me "seguir" será um grande prazer.

Um forte abraço!

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Sandro Moraes disse...

Valeu, meu mano Washington, Paz! Também deixei comentário no seu blog. Fique à vontade para usar meus textos como desejar e que o Senhor te inspire no seu trabalho. Abraço!